O primeiro livro eletrônico de poesias para celular no Brasil.

O primeiro livro eletrônico de poesias para celular no Brasil.
No computador (PDF), no smartphone (Mobi), iPhone (ePub).
"Estou impressionado com a beleza de teus poemas. Pensei em destacar alguns, algumas partes. Impossível. É tudo muito comovente, inteligente, terno, por vezes quase feroz.
Preciso dizer-te o quanto estou feliz em descobrir uma poeta de tua envergadura."
Rossyr Berny

Beijo de Vampiro

Meu cabelo é meu véu,
quando as minhas mãos
sobre o ombro juntá-lo,
então beijar-me tu podes
na esquerda nudez
do meu pescoço
um doce beijo de vampiro.

Nesta noite serei tua.


© 2009, Nancy Lix. Lua em Refração
"Je crois que l'homme est un nomade, qu'il est fait pour se promener, pour aller voir de l'autre côté de la colline."

Eu acredito que o homem é um nômade, ele é feito para andar, para ver o outro lado da colina.


Mohamed El Jeroudi, Poésie Nomade

Fria madrugada sem fim

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Entre minha ilusão de existir
E o nada negro que agora há comigo e não existe
Amei como quem ama, sem ter a quem amar
Quis como quem quer, sem ter o que querer
Tive como quem tem, sem ter o que ter
Fui como quem é, sem ter o que ser
E agora sinto como quem não sente
Nada tenho.
Só, sou.
........................................................................

O que pedimos ao destino outras já pediram. Cometemos sempre o mesmo erro.

(NancyLix)

Mulher Real

Deixe-me tirar estas felpas
dos meus calcanhares,
deslizar os meus pés descalços
sobre a úmida grama,
circunvolver o meu corpo
de forma graciosa,
voluptuosa,
aconchegante,
pois que sou uma mulher real,
não uma andróide de revista,
com seios de borracha,
uma criatura esquisita,
de olhar e caminhar de zumbi,
ou uma boneca digitalizada,
esticada,
projetada
da transexualidade do homem.

Qual arte maior que a feminina,
das tatuagens do tempo
no ventre gerando vidas,
nas mamas intumescidas de leite,
no esforço dilatado,
rasgado,
refletindo o original mistério,
instintivo,
criativo,
da natureza viva em cada mulher.


© 2009 Nancy Lix, Lua em Refração.

Serafim

Minha espada,
meu falo,
minha fala.

Fel e mel
sobre a minha língua,
o meu grito,
a minha sedução.

Minhas asas de fogo,
meu hálito de dragão.

Em ti faço a metamorfose,
transfigurando a minha alma
da contraparte à semelhança,
de hermafrodita radiação.

Afinal somos um
embora de forma distinta.

O meu prazer de mulher
é o de ser internalizada.


© 2009. Nancy Lix, Lua em Refração. Ed Plus.

Anjo e Demônio

Anjo e demônio,
meu segredo,
meu véu,
minha sina velada,
como posso atar
essas duas partes de meu ser,
colocar asas em meu corpo,
corpo de serpente,
deixar de rastejar,
sair da escuridão,
e acoplar-me sobre a árvore,
entregar-me ao meu desejo,
sem a ele submeter-me
ou perverter-me,
isento de pegajosa lascívia,
mas de beijos profundos e doces
como o licor de anis,
intensos
e inocentes de prejuízos,
sem converter, contudo,
em chama volúvel a minha alma,
em desapaixonada paixão,
como um anjo sem ventre,
ou um demônio sem coração.


© 2009. Nancy Lix. Lua em Refração.

Um Raio de Luz

Um raio de luz sobre o meu rosto
nesta noite escura amaldiçoarei,
tão tenebrosas as minhas loucuras,
os meus pensamentos tão vis,
macabros prazeres encontram guarida.

Virar-me no túmulo é o meu único desejo...


© 2009, Nancy Lix.

Gosto dos Venenos

"Gosto dos venenos os mais lentos

As bebidas as mais fortes

Dos cafés mais amargos

E os delírios mais loucos.


Você pode até me empurrar de um penhasco

que eu vou dizer:

E daí

eu adoro voar!!!"

Clarice Lispector

A Mão do Menino

A mão que me toca
E me bate no rosto
É a mesma mão do menino
Acariciando a face da mãe

A mão que me toca
E me aprisiona a alma
É a mesma mão do menino
Soltando pandorgas ao vento

A mão que me toca
E me marca o destino
É a mesma mão do menino
Desenhando as cores do mundo

Enquanto um fruto avermelhado
Amadurece do outro lado do muro
Sobre as folhas das amoreiras
Onde o bicho da seda tece o seu casulo.


© 2009, Nancy Lix.Espelhos sobre o Lago
"... dividir é tudo o que sei do céu, mas todos nós precisamos do inferno."

Emily Dickinson

Reparo

Os pés seguem as próprias pegadas
Sem conseguir acompanhar os pensamentos
Sem descobrir qual será o próximo passo

Ontem era como caminhar no campo
Quase como perseguir o vento

Hoje é como ser pego na ventania

Enquanto tentava enviar o oceano por navio
O vento nao levava

Hoje, o mar segue enterrando minhas cartas
Segue afogando quem já me sorriu

Quando eu era menor
Poderia ter saído correndo pela praia
E ter voltado pelo amanhecer

Poderia ter me achado no meio do vazio

Ontem, partes do meu corpo doíam
Partes que eu pensava não ter mais
E deixei de aproveitar tanto
Enquanto nada que me segurava para trás

Ontem eu tinha um teto
Depois, passei a olhar os telhados
Hoje, caio com a chuva

Mas não se preocupe
Agora já não dói mais

© 2009, Lucilo Thomé
E repetia Dostoiévski loucamente fora de si: - A beleza salvará o mundo.

Divindade Cega II

Fui mulher do homem,
boneca de fetiche,

objeto da sua perversão,
deixei de sê-la para ser gente,
antes de nascerem as asas
e tornar-me peregrina,
uma peregrina veloz
com venta nos pés
e capacete invisível,
antes de encontrar a filosofia,
solitária palidez ,
solidez abstrata,
gelada sabedoria,
antes de furar os meus olhos,
e não servir mais de espelho
para nenhum mortal,
nem objeto de mim mesma.

Voltei-me para dentro
onde não existe reflexo,
só escuridão,
pulsão.

E sem olhos eu ouvi,
ouvi o canto dos monges nos Urais,
senti a paixão dos mortos que é a vida,
a paixão dos vivos que é a morte.

Num rasgo de espada no meu ventre,
tornei-me vida pela primeira vez.


© 2009, Nancy Lix.

Volta ao Eden

Logo ao amanhecer do meu último sono
abrirei os meus olhos para o jardim
da imortalidade dos mágicos sonhos,
das perfumadas flores que jamais murcham,
da eterna maçã na árvore do paraíso,
e ouvirei as doces palavras da serpente
num estado de encantamento também infinito...

© 2009, Nancy Lix.

Divindade Cega IV


Quero falar-te a palavra sem voz,
olhar-te nos olhos sem luz,
tocar-te sem física presença,
quero entrar na tua alma,
possuir-te sem resistência,
ser engolida pelas tuas emoções,
mas eu já te possuo sem ver,
e, como sombra, não me permito revelar,
cair na armadilha do teu corpo,
presa da minha própria pulsão.

Meu desejo ainda é ser livre
para sobrevoar os meus abismos,
perder-me na imensidão dos meus mares,
sem bússola humana,
guiando-me pelo instinto apenas,
e meu instinto me diz:
voe para longe das armadilhas dos corpos,
o amor é um cálice vazio de veneno derramado
.
© 2009, Nancy Lix. Lua em Refração.

"Foram desastres inúteis porque de fato, a cada queda, desaprendi-me mais ainda."


O Guardião

O lobo atirava-se contra a vidraça. Louco. Irado. Gengivas retraídas. Dentes rangendo. Tomás achava que era um pesadelo. Não quis acordar.
Uma noite a vidraça quebrou. Arrastou-se da cama. Estilhaços no chão. Era real. O lobo tentava entrar. Assustado, Tomás correu até o armário, pegou a arma, colocou as balas, fechou o tambor, engatilhou, mirou e atirou na cabeça da fera, que caiu ensangüentada, no lado de fora da casa.
Saiu e verificou: o lobo branco estava morto.
Voltou para o quarto e fechou as cortinas. De manhã, resolveria o problema com o corpo. Ademais, ainda tinha dúvidas se estava acordado ou dormindo.
Tateando no escuro, acendeu e apagou rapidamente o abajur, para encontrar a cama. Enquanto deitava, seu cérebro processou as imagens do instante anterior: no raio de alcance da luz, um esqueleto, com uma capa preta e uma foice na mão.
O velho Tomás faleceu naquela noite. Enfarte fulminante.


©, 2009, Nancy Lix.
 
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